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Poeta iporaense Mauro Leslei lançará brevemente seu livro | Imprimir |


O talentoso e premiado Mauro Leslie (foto) é tido pelo famoso homem de letras em Goiás, Brasigois Felício, como  poeta forte, dono de personalidade criadora não sucumbível à angústia das influências. Diz ainda Brasigoias ao apresentar seu livro a ser brevemente lançado, Funeral da Primavera, que Mauro tem discurso próprio, constrói ele próprio a sua dicção. Mauro proclama a seu tempo e a seu país, como vê e sente a vida e o mundo. E na opinião de Brasigoias Felício, ninguém lerá Funeral da Primavera impunemente. Este livro deixa sinal no leitor.

O poeta Mauro Leslie está preparando o lançamento da obra. Ainda não tem a data, pois a editora, ora trabalhando em sua impressão, ainda não entregou a obra. O poeta planeja um lançamento do livro em Iporá e outro na capital, além de eventuais solenidades de lançamento onde mais for possível.

Funeral da Primavera é  fruto do prêmio que Mauro Leslie obteve, a Bolsa de Publicações  Hugo de Carvalho Ramos, que além de premiação em dinheiro l(R$ 30.000,00) lhe deu o direito a publicação da presente obra.


Veja o que diz Brasigois Felício sobre a obra do poeta iporaense:

Na música das esferas, ou no chão de Gaia, a Mãe Terra, dando rima rica ou pobre, escritas em prosa, gesto, fala ou verso, todas as vidas  são livros raros, na biblioteca labiríntica do universo. Em sendo poeta ou artista, ao Ser que se quer artífice do verbo cabe viver a vida enquanto a inventa em seus versos. E por mais que omita, ou em si minta (pois o poeta é fingidor) palavras são falavras, mesmo quando publicadas, pois que apenas resvalam o insondável mistério da Vida. 
 
Não sabendo que é impossível sequer roçar tal enigma, os poetas insistem na “lucidez do compromisso”. Assim mantêm viva a teia dos mitos, reverberam ecos de sonhos que são mais antigos do que seus ossos. Caso, por certo, de Mauro Leslie, poeta de grande talento, premiado no concurso Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, com este Funeral da Primavera, de que dou notícia, à guisa de saudar sua chegada no hospital das letras, de que falou o poeta Pio Vargas, conterrâneo de Mauro Leslie. Pio Vargas, que muito cedo se foi deste mundo, foi um dos grandes talentos surgidos em Goiás, a partir de Iporá (caso de Leslie e também dos poetas Carlos William e Edival Lourenço).

 “Viva a vida enquanto viva”, disse Paulo Leminski a Pio Vargas, pouco antes de morrer – ou de matar a sua vida, em doses cavalares ou homeopáticas – não em um golpe de samurai curitibano, que ele foi, em um golpe ritual de espada certeira – mas como quem decide apagar lentamente a estrela da vida inteira. O caso, aqui, não é falar de Leminski ou de Pio Vargas, mas de Mauro Leslie – tais lembranças do coração vieram-me quando meu olhar, em lance de sincronicidade mágica, ou em lance de dados que não elide o acaso, relancearam a lombada do livro Anatomia do Gesto, do malogrado gênio poético goiano. Coincidência? Pode ser, mas como explicar o fato de relancear o olhar para este livro, quando me colocava em abertura mental para escrever este prefácio sobre este Funeral da Primavera – estranho título, carregado de ambigüidade e aparente contradição. Pois como pode a primavera, símbolo de renascimento, ter algo a ver com as pompas do oblívio?
 
Tendo ou não sentido lógico (e os poetas não estão nem aí para a miopia de Aristóteles, nem tem seus caixotes repletos dos abacates de Renê Descartes) o poeta intenta erguer seu canto, proclamar a seu tempo e a seu país, como vê e sente a vida e o mundo. Ninguém lerá impunemente este Funeral da Primavera, de Mauro Leslie. Poesia de um poeta forte, dono de personalidade criadora não sucumbível à angústia das influências. Mauro tem discurso próprio, constrói ele próprio a sua dicção. Vejamos alguns de seus versos: “”Reconstruo-me/em desconstrução/nego-nos/e mesmo dormindo sem mim/haverei de acordar comigo”. Sim, pois que embora sejamos todos casas habitadas por milhares de eus, sempre acordamos com a persona (ou a máscara) com a qual nos identificamos, e pela qual somos reconhecidos pelos outros mascarados.

Mais adiante, o poeta lança ao tempo e ao vento seus vagidos poéticos: “Ó filhos da orfandade, sonegados/eu tenho o coração/forrado de canhões/Minha angústia tem gosto de pólvora/e soluço de estouro/eu falo e os círios do cão maior/tremeluzem no vazio dos céus/minha alma é um couro/tergivesado de todos os choros/”. O “altruísmo do algodão”, a espalhar-se, em igualdade que não exclui a diferença, em isonomia e bem-aventurança de dádiva – “branco sobre o chão” faz com que o poeta sinta “o povoado que nos meus olhos mora/é uma gente esquecida/ de corpo retorcido pelos escalavares/dos dias secos/”.
O vate também lamenta o fato de a fraternura e as flores do chão de sua infância tenham se perdido nos dias secos, sendo por ele “ignorados, abandonados, discrepados de ternura/estão à mercê da sorte/a sede se lhes definha/o amor se lhes odeia/o chão, a pátria se lhes nega/vivem à míngua/morrem em abundância/de ínfima desgraça/”. Na avidez e na solidão da alma esquecida do caminho da Graça e da Bem-aventurança em que se pode viver, o Ser sente-se no abismo infernal, na jornada da alma que, ao chegar ao mais ínfero de si própria, como Dante, escuta o chamado sinistro: “Ó vós que entrais, abandonai toda esperança!”.

E prossegue o poeta, na jornada da alma: ”Povoado tenho os olhos/de dores angolanas/norte-coreanas/prosperam em minhas mãos/dedos e unhas nordestinas/escavando o ser/tão sozinho/enterrando cabeças, santos, deuses, o país...”. Chamo a atenção do leitorado para o reforço de expressão dado a palavras escandidas como objeto a precipitar-se em seu próprio vazio:

                                                “O ser
                                                           Tão
                                                            Sozinho”
 
... signos do verbo poético, a reverberar no sertão do Ser, o Liso do Sussuarão, de que falou Guimarães Rosa, em seu monumental Grande Sertão: Veredas: um lugar tão ermo e vazio de vida que nele cavalgam fantasmas encarnados, em combates do absurdo, inerentes ao não ser, como nos revela o clima onírico do romance O deserto dos tártaros, do escritor italiano Dino Buzatti.  Uma “sosinhês” do humano se instala no ser tão do deserto da alma, onde viver é perder-se de si próprio, no desacontecimento do Ser. Mas sempre resta a esperança de que tão ab-surda luta seja recompensada, mesmo pelo vazio, que sendo quântico, abre-se a todas as possibilidades.
Neste mundo de perene mudança, onde tudo muda a todo instante, e só a mudança não muda nunca, mesmo a morte vem fazer parte essencial e imprescindível do jogo da vida, se a consciência não invertida não sucumbe aos falsos conflitos e às dores do mundo: “Afinal, senhor, sara minha neve! Se não podes por mim pesar,/se não posso ficar, me leve!”. Versos que remetem a este, do gênio poético de ... em intertextualidade clara, sendo ou não proposital: “Vida louca/vida breve/já que não posso te levar/quero que você me leve!”.
 
 O poeta, em sua angústia metafísica, sabe que é muitos em um – falam por sua voz muitas vozes, no oceano de lembranças arquetípicas do inconsciente coletivo, de que C.G. Jung falou, em intuição de gênio iluminado pelo fogo dos deuses. Tem consciência de que fala por multidões, tendo, assim, o direito de contradizer-se. Como falou de si próprio Walt Whitman, outro iluminado pela consciência cósmica: “Contradigo-me porque sou vasto/contenho multidões/”.

Brasigóis Felício é Escritor, Jornalista, mais de trinta livros publicados, colunista da revista Bula e cronista no jornal O Polular.

 

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