Foco na História: professor da UEG relembra o Padre José Barbudo

22/02/2021
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João Paulo Silveira, Doutor em Sociologia (UFG), Professor do Curso de História da UEG, Câmpus Iporá e do Programa de Pós-graduação em História do Câmpus Morrinhos e  Membro do Núcleo de Estudos da Religião Carlos Rodrigues Brandão - FCS-UFG tem feito reflexões sobre personagens da História de Iporá. Aqui, ele relembra Padre José Bessemans que foi marcante e até hoje pelos mais velhos


Segue texto do Professor João Paulo: 


MONTADO EM UM BURRO, UM SACERDOTE BELGA BARBUDO


Movido pelo esforço de compreender um pouco de nossa história, em especial sua paisagem religiosa, compartilho com os leitores algumas considerações a respeito do Padre Jozef Evarist Bessemans (1899-1993), conhecido como José Barbudo, segundo o jornalista Valdeci Marques, ou simplesmente padre José, segundo a documentação da Igreja. O que segue é um apanhado um tanto incompleto, mas que foi organizado especialmente a partir de conteúdos colhidos nas fontes históricas paroquiais. Outras referências, formais ou não, também foram úteis para compor a reflexão que socializo neste breve registro, entre eles um breve texto escrito por descendentes do padre e que foi precariamente traduzido por mim.  Acredito que uma pesquisa mais densa exigirá o acesso a documentos que possivelmente estão em posse da Diocese de Rondonópolis-Guiratinga, no Mato Grosso, além da escuta atenta daqueles que ouviram falar do padre.


Bessemans foi um padre salesiano de origem belga que realizou serviços religiosos em Iporá e região entre 1943 e 1951. O religioso viveu a maior parte de sua existência no Brasil, sendo ordenado sacerdote, na cidade de Guiratinga, Mato Grosso, em 1939, nove anos depois de ter chegado ao Brasil. Antes da ordenação, Bessemans lecionou língua francesa para seus confrades. 


Por ostentar uma longa barba, semelhante a um eremita ou ao que imaginamos terem sido os antigos padres do deserto, Bessemans marcou pela sua fisionomia o imaginário iporaense. Montado sobre um burro, animal com o qual cumpria seus itinerários, levou a vida proclamando a doutrina católica, quase como um sertanista, em uma região da fronteira do Centro-Oeste, entre Mato Grosso e Goiás. 


Segundo os registros, Bessemans iniciou suas atividades como pároco de nossa região em abril de 1943 – há referências secundárias que apontam o ano de 1940, mas as fontes da Igreja não confirmam esse ano. Ele foi o último a conduzir a festividade religiosa no povoamento de Rio Claro, anteriormente conhecido como Comércio Velho, em outubro de 1949. Possivelmente, a última missa no local em vias de abandono definitivo foi celebrada por ele na ocasião festiva. 


Naquele tempo, não existia residência paroquial por aqui. O pároco, baseado em Araguaiana (MT), na circunscrição eclesiástica da Diocese de Guiratinga, fazia desobrigas duas ou três vezes ao ano em Iporá e região, a fim de cumprir sua vocação sacerdotal e alimentar espiritualmente os católicos que, já naquela época, conviviam com protestantes e alguns poucos espíritas. 


O padre deu seguimento às atividades realizadas por outros salesianos que vinham do Mato Grosso, entre eles o Padre Higino Fasso (1902-1988) e o Padre Luís Brívio (1878 – 1953), possivelmente o primeiro padre salesiano a passar pelo povoamento onde hoje está Iporá. Notem que a aludida diocese mato-grossense cuidava da catolicidade dessa parte do Estado de Goiás, em virtude da distância das dioceses goianas. Mas, independentemente das dioceses, foi pela influência do padre barbudo que a devoção a Nossa Senhora Auxiliadora floresceu por aqui – a santa era venerada pelo fundador da congregação religiosa. 


Além dos Salesianos, palmilharam a região, nos anos trinta e quarenta, os padres Redentoristas vindos de Goiânia. Entre os redentoristas, são citados na documentação da igreja, datada de 1946, os padres Oscar Jacob Krindges (1916-2011) e Agostinho Jorge Polster (1890-1958). Em grandes linhas, os padres das diversas congregações que atuavam nessas desobrigas realizavam batismos, crismas e casamentos por onde passavam. Amiúde, os religiosos que alcançavam essa parte de Goiás, muitas vezes sobre o lombo de animais, em jornadas longas, eram acolhidos na casa do senhor José, conhecido por “Pretinho”, e de sua esposa, a senhora Persiliana Maria da Conceição, parteira de memória saudosa na região.


Ao lado de mulheres e homens católicos, Bessemans colaborou com a criação da primeira capela católica em 1943. Esse ano de atuação do religioso está registrado no trabalho de pesquisa de Sebastião Alves de Jesus e Tiago Almeida Barros e consta também na dissertação de José Marcelo de Oliveira. Os pesquisadores se basearam em depoimento ofertado por Durvalina Rosa de Souza, a Dona Duzinha, senhora que desde sua infância viveu em frente ao terreno da primeira capela, local da atual rodoviária. 


Se aqui faço o uso do verbo “colaborar”, para caracterizar a atuação do padre José na criação da primeira capela, é porque tento destacar que as religiões comunitárias não sobrevivem apenas pelo empenho de quem as lidera, razão pela qual asseguro que Bessemans, como os outros padres que vieram depois, era um ator de uma cena religiosa complexa e ampla que incluía o “leigo”. Compete acrescentar ainda algumas atas de reunião do início dos anos 1940, a mais antiga datada em 14 de julho de 1940, que apontam o Pe. Higino Fasso como um dos idealizadores da capela ao lado de moradores de Itajubá que procuravam satisfazer as demandas da fé local.


Além da barba longa e espessa que conferia a Bessemans o aspecto de um homem austero, o sacerdote se notabilizou pela concepção da Escola Dom Bosco em 1947. O nome da escola foi uma referência ao fundador de sua congregação religiosa, surgida no século XIX, o italiano João Melchior Bosco (1815-1888), canonizado em 1934. Em uma ata escrita pelo dominicano Frei Henrique Ciocci, em 1951, é possível ler que a criação da escola católica aconteceu em contexto de disputa com protestantes pela influência sobre a incipiente paisagem educacional local e sobre a juventude, objeto preferencial das religiões comunitárias na modernidade. O frei menciona em suas anotações que José Barbudo chegou a excomungar Israel de Amorim e família em virtude do tensionamento que misturava disposições políticas e religiosas locais. Mais tarde, coube ao Padre Wiro van Vliet, que durante breve período foi professor na escola católica, atuar pelo lado católico como figura pacificadora das eventuais discórdias. 


No início da década de 1950, os dominicanos vinculados à Diocese de Goiás passaram a cuidar de toda a região. Em virtude disso, Bessemans deixou a Paróquia aos cuidados de Pe. Henrique, no dia 3 de abril de 1951, há 60 anos. Mesmo assim, o religioso visitou a cidade algumas vezes.  A escola foi, segundo me pareceu, a iniciativa da qual se orgulhava muito e que certamente teve – e ainda tem! – relevância na formação da juventude da região. No Mato Grosso, o padre belga se dedicou às atividades missionárias em cidades do sudeste do estado, entre elas Alto Garças, Araguainha, Dom Aquino e Guiratinga. Sua carreira de fé se realizou de fato no estado vizinho, onde passou a maior parte da vida.  Padre José faleceu em 20 de junho 1993, aos 93 anos, em Guiratinga, onde foi ordenado padre décadas antes. 


Natural da comunidade Metsteren, na cidade belga de Sint-Truiden, o Padre José foi o único entre os 11 filhos do moleiro e agricultor Martinus Bessemans e de Maria Bessmans van Brustem que manifestou vocação sacerdotal. O sacerdote foi homenageado em seu lugar de nascimento onde hoje se encontra uma placa que celebra sua memória. Sua história representa parte da presença religiosa em um contexto da expansão das fronteiras no interior do Brasil do qual Iporá fez parte.


A atuação local do belga barbudo montado sobre um burro nos faz pensar que Iporá foi forjada a partir do cruzamento, muitas vezes tenso, de grupos e indivíduos inscritos em temporalidades diversas, ora sobre o lombo de animais, ora a bordo de aviões da Nacional. O imbricamento dessas múltiplas tramas temporais, fios das expectativas e dos destinos de gente de vários cantos, coseram aos poucos, sob a sombra do Morro do Macaco, o vivo tecido do qual fazemos parte hoje. 



José Bessemans: andanças de burro pelo sertão, levando o catolicismo e morte em Guiratinga

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