Há o risco de em futuro próximo faltar água para o abastecimento de Iporá, alerta professor Flávio Alves de Sousa

04/03/2021
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Flávio: Dedicação em estudo que tem a ver com o futuro de Iporá

Ninguém dedicou tanto a estudar o solo do município de Iporá e a bacia do Córrego Santo Antônio como o professor Flávio Alves de Sousa. Depois de tanto estudo, ele faz afirmação categórica: Há o risco de em futuro próximo faltar água para o abastecimento de Iporá. E quem faz essa afirmação tem muitos credenciais para isso. Flávio Alves de Sousa, que é da UEG de Iporá, é Especialista em Análise Ambiental pela Universidade Federal do Paraná (UFPR); Mestre em Geografia (Análise de bacias hidrográficas) pela Universidade Federal de Goiás (UFG); Doutor em Geografia (Geomorfologia) pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e Pós-Doutor em Geografia (Dinâmica Subsuperficial da Água nos Solos) pela Universidade Federal de Goiás – CAJ/Jataí.  


RISCO DE EM FUTURO PRÓXIMO FALTAR ÁGUA NO ABASTECIMENTO DE IPORÁ. Esta afirmação precisava ser levada mais a sério. No entanto, ninguém faz nada. Nem a Saneago que capta a água da bacia e a comercializa aos moradores de Iporá. E quando faltar água, como será? O risco existe. Ações para impedir não estão havendo. A seguir, a pedido do Oeste Goiano, o professor Flávio Alves de Sousa escreveu o texto que ora publicamos. Ele dá detalhes sobre a situação de chuvas, de solo, lençol freático e mananciais. Vale a pena ler com atenção.


Segue o texto do professor: 


Bacia Hidrográfica do Ribeirão Santo Antônio – Uma breve reflexão


Autor: Flávio Alves de Sousa


Em pesquisa em fase de andamento e desenvolvida pelo laboratório de estudo do relevo, solos e águas (LAERSA) do curso de Geografia da UEG – Unidade de Iporá, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG), está sendo avaliado o comportamento da variação da água do lençol freático no municipio de Iporá. 


Numa  primeira etapa, já finalizada e publicada em revista científica, foram identificadas as zonas de recarga do lençol freático e feita a caracterização dos aquíferos que dominam no município.  Para aqueles que se interessarem pelo assunto o artigo poderá ser acessado através do link: http://www.revistas.ufg.br  Revista Geoambiente n. 33 | Jan-Abr/2019.


As chuvas e o lençol freático tem uma relação direta com as vazões, e neste caso específico, com as vazões do Ribeirão Santo Antônio. A alta bacia hidrográfica do Ribeirão Santo Antônio está integralmente no domínio do Aquífero Cristalino (fraturado), onde a capacidade de percolação da água e armazenamento é bem pequena, devido à natureza da rocha (Metagranito Ribeirão Santo Antônio) de idade Pré-Cambriana, onde a porosidade fica por volta de 0,5 a 2%, como descrito em Sousa (2019). 


Nos últimos quatro anos a precipitação anual (ano civil) tem ficado abaixo da média histórica (1975-2019) e isso, além das questões da natureza litológica e da pouca conservação ambiental da bacia pode contribuir com a redução da vazão e da capacidade de captação de água para a cidade de Iporá. A Figura a seguir mostra a variação da precipitação (colunas em azul) entre os anos de 2017 a 2020 em relação à média histórica (linha vermelha).  



Durante os períodos de estiagem, o lençol freático auxilia o manancial a conservar a sua perenidade, fazendo com que o nível da água não desça abaixo de seu leito, embora diminua o seu volume de escoamento. Todavia se o ciclo de chuvas diminuir e se a bacia não receber ações eficazes de conservação de solos e água, a escassez pode se pronunciar até a um ponto crítico.   


O nível de rebaixamento da água do lençol freático é lento e a velocidade do mesmo varia conforme a natureza da rocha e do nível de conservação dos solos e da vegetação, e é claro, das chuvas. A Figura a seguir mostra um exemplo de reação do lençol freático em relação à chuva. A mesma representa um poço de controle de 20 m de profundidade na zona cristalina, onde está a bacia do Ribeirão Santo Antônio. As colunas azuis representam as variações da profundidade da lâmina de água no poço e a vermelha a variação da chuva. Reparem que mesmo aumentando as chuvas a subida do lençol freático é retardada.



O rebaixamento médio no domínio de rochas graníticas no município de Iporá, como é o caso da alta bacia do Ribeirão Santo Antônio representa 0,00477 litros.dia-1 ou o equivalente a 4,77 ml.dia-1 , enquanto a recomposição ficou em média em 0,00471 litros dia-1 ou 4,71 ml.dia-1 . Estes valores dependem diretamente do volume de chuvas, mas de qualquer maneira há um período de retardo alto entre o início das chuvas e a retomada do nível freático e enquanto isso, as vazões são reduzidas.


Algumas Considerações 


A bacia hidrográfica do ribeirão Santo Antônio em sua íntegra (650 km2) e na sua parte alta (125 km2) inspira bastante atenção do ponto de vista de conservação para que a água continue fluindo em quantidade suficiente para o abastecimento e para as demais atividades econômicas do município, e para isso, algumas variáveis necessitam ser pensadas, como: a natureza litológica da bacia é um fator limitante no processo de infiltração/armazenamento de água subterrânea; as nascentes precisam ser conservadas; áreas de preservação permanente precisam ser mantidas ou recuperadas; atividades de uso e manejo sustentável dos solos precisam ser implementados; aberturas de poços precisam ser regulamentadas, pois embora se saiba que o número de poços vem crescendo vertiginosamente, não é possível quantifica-los por falta de controle dos órgãos competentes, e as aberturas indiscriminadas contribuem com o rebaixamento  do lençol freático, influenciando na vazão dos mananciais, embora não se tenha dados suficientes para quantificar e qualificar estas influências. 


Sobre água subterrânea no município, apresento alguns dados que não ousarei explicar nesta oportunidade, mas onde é possível perceber que o volume de água passível de ser explorada sem prejuízo ao sistema é bem pequeno (reserva explotável), mas esta informação pode embasar atividades de controle.



Enfim, a bacia hidrográfica do ribeirão Santo Antônio precisa de um olhar voltado para a conservação, sob o risco de em futuro próximo não termos mais condições de abastecimento (embora não seja apenas o caso desta bacia), mas ela é muito importante para nós cidadãos de Iporá. Fatores naturais estão evoluindo para condições severas de modificação, mas podemos ainda agir naquilo que nos é possível. 


O  curso de Geografia e o LAERSA estão à disposição da comunidade para aquilo que for possível esclarecer e estudar sobre os aspectos naturais e socioeconômicos do nosso município. 


Sobre o autor:


É professor efetivo no curso de Geografia da Universidade Estadual de Goiás (UEG – Unidade de Iporá);
Bacharel em Geografia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL);
Especialista em Análise Ambiental pela Universidade Federal do Paraná (UFPR);
Mestre em Geografia (Análise de bacias hidrográficas) pela Universidade Federal de Goiás (UFG);
Doutor em Geografia (Geomorfologia) pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU);
Pós-Doutor em Geografia (Dinâmica Subsuperficial da Água nos Solos) pela Universidade Federal de Goiás – CAJ/Jataí.  

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3 comentários

  • Ademi Alves Santana 04/03/2021

    Já pensou Iporá sendo abastecido por carros pipa iguais no nordeste, vai render muitos votos para os políticos, mas acredito que isso não deverá acontecer não, não temos muitos rios e nem ribeirões próximos da cidade mas como citei acima, até do Rio Claro dá para captar água, se o Santa Marta for insuficiente.
  • Ademi Alves Santana 04/03/2021

    Salve-se quem puder, depois dessa pandemia será hora de pensar seriamente neste problema, as autoridades devem saber, ou será que teremos que virar um nordeste para que tenha solução. Li atentamente o que o nobre professor, de muitos títulos por sinal, mas para a população leiga o que vai interessar mesmo serão as atitudes dos governantes, estadual e municipal. E como mencionei nordeste, se fizeram a transposição do rio são francisco levar água até do rio caiapó não será impossível, mas bastante custo. Se temos o ribeirão santa marta mais próximo a captação de água através de manilhas não será muito oneroso. Ribeirão Santo Antônio é um curso de água pequeno e com tantas lavouras de hortaliças, uso de chacareiros e outras atividades não terá como o uso prolongado desse recurso hídrico por muito tempo. Do ribeirão Lages muito menos, do Rio Claro também é possível, são cerca de menos de vint
    • Ademi Alves Santana 04/03/2021

      Complementando meu comentário, do Rio Claro são cerca de menos de vinte quatro km em linha reta, e antiga estrada de Ivolândia dá muito menos, quiser usar o Ribeirão Santa Marta. Só não se pode mais é fazer a perfuração indiscriminada de poços artesianos, essa água também não é infinita. No mais, parabéns professor pelo estudo.
  • ANTONIO FERNANDES DOS ANJOS 04/03/2021

    Ótimo estudo, Prof. Flávio! Realmente o município e a Saneago precisam antever o risco de desabastecimento e passar a captar água também do Ribeirão Santa Marta. A UEG está sempre contribuindo para o conhecimento e ações locais que trazem grande benefício à população!

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