Opinião

Iporaense no Rio de Janeiro, entre fogos de artifício e tiros

Polliana Alves
09/10/2017

Sinto o travesseiro recheado de plumas de ganso, daqueles que vemos nas novelas da globo, branquinho, muito limpo e macio. Estou recostada em um desses travesseiros lendo uma reportagem sobre ateus.

 

Ouço fogos de artifício, imagino que seja algum sem noção voltando para casa, ainda eufórico com o último show do Rock in Rio, e perturbando a paz de quem voltou mais cedo e descansa e sorrio. Sozinha. Meus filhos ainda dormem. Na minha cama a menina. Na cama improvisada, o menino. Escuto mais fogos e agora eles estão mais fortes e pipocam, um seguido imediatamente por outro. Estranho isso. Fogos sempre têm um intervalo maior entre eles.

 

Cutuco minha filha e digo a ela: Está escutando os fogos de artifício? Tem maluco de todo jeito nesse Rio, né?! Foguetes a uma hora dessas. Ela responde sem nem abrir os olhos: Mãe isso é tiro. Dou um pulo e levanto, rapidamente vou a janela enorme, toda de vidro, do quarto é quase uma parede de vidro e, observo a paisagem procurando algo, que não sei exatamente o que é. Meu filho levanta num pulo e corre para a janela. Isso é tiro de fuzil! Diz eufórico. Vejo uma fumaça saindo das casinhas da favela. E mais tiros. Foguetes fatais. Imediatamente me afasto da janela, por instinto. Lembrei que o hotel onde estamos hospedados fica entre a favela da rocinha e o mar. Mas me sinto segura e protegida nele. As paredes são grossas, o vidro é espesso e tem muitas pessoas ali que podem nos ajudar, se precisarmos. Levantamos e fomos tomar café da manhã.

 

Olho para todas aquelas pessoas e, descrente, não acredito que essas pessoas não estejam envolvidas nesse tiroteio. Todas temos pólvora nas mãos. Estamos todos, apenas desejando escapar com vida mais uma vez. Ao longo do dia me inteiro sobre o que motivou aquele tiroteio: basicamente, disputa de poder. Sempre isso. O que nos motiva e o que nos atrasa.

 

Voltamos para o quarto e decidimos não sair para a praia, por enquanto. Recosto meu corpo no travesseiro. Ela não acomoda bem minha coluna. Viro, mexo nele. Tento novamente e o travesseiro não cede. Estou trancada num quarto de hotel com um travesseiro de sementes de paineira machucando minhas costas.

Polliana Alves

Polliana Alves é iporaense bacharel em Direito e especialista em Direito Ambiental

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